Primeiro paciente com rim de porco recebe transplante de rim humano

Há um ano, Tim Andrews estava entre os primeiros receptores mundiais de um rim de porco geneticamente modificado. Agora, ele é o primeiro desse pequeno grupo de pioneiros a receber um rim humano.

“Eu sou o primeiro a atravessar essa ponte… Sou a única pessoa no mundo que já teve um rim de porco e depois recebeu um rim humano”, disse ele à CNN do hospital na quinta-feira (15). “Ninguém nunca atravessou essa ponte. Isso é incrível!”

Andrews, que tem diabetes e vivia com doença renal em estágio terminal, recebeu um rim de porco em 25 de janeiro de 2025 e viveu com ele por um período recorde de 271 dias. Após seu corpo rejeitar o órgão, este foi removido em outubro, e Andrews voltou para a diálise — um processo extenuante que o mantinha vivo, mas o deixava tão miserável que o levou a aceitar o xenotransplante experimental.

“Eu chorei”, disse Andrews, de 67 anos. Ele disse à sua família que não esperava sobreviver até o final do ano.

Mas próximo à meia-noite de 12 de janeiro, o Mass General Brigham ligou para informar que um rim humano — uma combinação quase perfeita — havia sido identificado. Ele foi programado para cirurgia de transplante às 8h do dia seguinte.

Andrews agora espera receber alta para sua casa em New Hampshire na sexta-feira (16), apenas alguns dias após o histórico transplante de órgão que o tornou um exemplo vivo da promessa da xenotransplantação: órgãos de animais podem ajudar a manter humanos vivos e saudáveis o suficiente para uma solução de longo prazo e uma nova chance de vida.

Uma resposta para a escassez de órgãos

A xenotransplantação – o transplante de órgãos entre diferentes espécies – tem sido apontada como uma possível solução para a atual escassez de doadores de órgãos. Os órgãos de porco transplantados são geneticamente modificados para controlar a rejeição e o tamanho.

Nos Estados Unidos, a qualquer momento, há mais de 100.000 pessoas esperando por um órgão, cerca de 80% delas necessitando de rins.

Mas apenas os pacientes mais graves estão listados; somente 1 em 8 pacientes com doença renal terminal está na lista de espera.

Das mais de 800 mil pessoas com insuficiência renal, cerca de 70% estão em diálise. Porém, a diálise tenta comprimir em apenas algumas horas por semana o trabalho que o corpo normalmente faz 24 horas por dia, 7 dias por semana. A taxa de sobrevida de cinco anos para pacientes em diálise gira em torno de 40%.

“A diálise não consegue reproduzir o que o corpo precisa em termos de eliminação de resíduos”, afirmou Leonardo Riella, diretor médico de transplante renal do hospital Mass General Brigham e médico de Andrews. “Tem um enorme impacto no paciente, tanto na qualidade de vida quanto, principalmente, na saúde.”

Andrews ficava conectado a uma máquina de diálise três dias por semana, por até seis horas por vez. Seis meses após iniciar a diálise pela primeira vez, ele teve um ataque cardíaco. “Isso afeta você emocional e fisicamente; você fica exausto e eu fiquei doente. Eu estava vomitando o tempo todo”, disse ele.

Enquanto os órgãos permanecem escassos, Riella vê o xenotransplante como uma solução.

“Mesmo que seja uma ponte”, disse Riella, “seria melhor do que [Tim] apenas continuar na diálise.”

Para preparar Andrews para o transplante humano, a equipe do Mass General testou Andrews em busca de novos anticorpos que poderiam potencialmente reagir com o novo rim humano e não encontrou nenhum. Seu transplante mais recente levou cerca de três horas, e ele disse que seu novo regime imunossupressor é cerca de um terço do que tomava quando tinha um rim de porco.

“Isso fará algo pela humanidade”

Para Andrews, receber o xenotransplante não era apenas uma questão de esperança longe da diálise, mas esperança para pacientes com doença renal em estágio terminal.

“Isso fará algo pela humanidade”, disse ele ao correspondente médico-chefe da CNN, Sanjay Gupta, no documentário “Sanjay Gupta Reports: Animal Pharm.”

Imediatamente após seu xenotransplante no ano passado, Andrews se sentiu diferente. “Eu estava lúcido. Não estava com o que eu chamo de névoa da diálise”

“Eu não estava cansado nem nada. De repente, eu tinha energia”, ele recordou.

Mas o caminho adiante teve altos e baixos. Andrews tomava 52 comprimidos por dia para ajudar a manter seu rim de porco, que ele apelidou de Wilma, e seu sistema imunológico em harmonia. Ao longo de nove meses, o rim começou a mostrar sinais de rejeição. Ele teve duas infecções. Riella disse que eles ajustaram o protocolo imunossupressor de Andrews, mas os rins já haviam sido danificados no processo.

“Houve alguns danos aos filtros do rim que, infelizmente, não eram reversíveis”, disse Riella. Por fim, eles removeram Wilma, e Andrews teve que voltar para a diálise.

Mike Curtis, presidente e CEO da eGenesis, empresa que forneceu o porco doador para o rim de Andrews, disse que foi uma rejeição lenta que os cientistas puderam prever por meses.

“Simplesmente não conseguimos descobrir como reverter isso”, disse Curtis.

Mas as biópsias e pesquisas sobre Andrews e o rim de porco podem ter ajudado a identificar o que levou à rejeição, o que pode beneficiar futuros receptores de rim.

“Temos uma ideia muito melhor do que estava causando essa rejeição de baixo nível, então podemos ajustar a supressão”, disse Curtis.

A experiência de Andrews ajudou a refinar o tratamento para os próximos pacientes de xenotransplante. Desde sua cirurgia em janeiro de 2025, o Mass General e a eGenesis se uniram para realizar mais dois xenotransplantes antes de iniciarem um ensaio clínico em um futuro próximo.

Uma alternativa à diálise

Mas Riella também vê o xenotransplante como um sucesso para Andrews. Wilma conseguiu mantê-lo fora da diálise por nove meses. Depois que Andrews voltou à diálise, sua função geral caiu novamente, e ele estava perdendo massa muscular e energia.

Neste momento, disse Riella, a comparação do xenotransplante pode não ser com um rim humano, mas com a diálise. “É um tratamento muito melhor para manter a função renal em comparação com o que a diálise pode oferecer”, disse ele. “Nosso objetivo é basicamente banir a diálise como um tratamento de longo prazo.”

Mas uma alternativa à diálise não é o objetivo final, disse Robert Montgomery, diretor do Instituto de Transplantes NYU Langone. Montgomery não participou do tratamento de Andrews, mas também tem sido uma das principais referências no campo dos xenotransplantes.

“Conforme essa técnica for melhorando e os xenoenxertos durarem mais, será um caminho definitivo”, afirmou Montgomery, que foi o primeiro médico a transplantar órgãos de porco em pacientes com morte cerebral e está liderando o primeiro ensaio clínico de xenotransplante aprovado pelo FDA na NYU.

Montgomery acredita que o xenotransplante será uma solução viável para pacientes nos próximos cinco anos. “No futuro, acredito que um único paciente com insuficiência renal alternará entre xenoenxertos e aloenxertos ao longo de sua vida.”

Riella afirma que é impossível saber o que teria acontecido com Andrews se ele não tivesse tentado um xenotransplante experimental. Mas Andrews diz não ter dúvidas de que Wilma foi fundamental para chegar até este momento.

“Se eu não tivesse aceitado a Wilma, já estaria morto. Não duraria mais um ano”, disse Andrews. “Agora posso pensar em anos pela frente. Posso fazer planos.”

O que ele planeja agora é compartilhar sua própria história e incentivar outras pessoas a se tornarem doadoras de órgãos.

“As pessoas precisam dar um passo à frente e ajudar”, disse Andrews.

Em uma mensagem publicada nas redes sociais na sexta-feira (16), Andrews agradeceu à família do doador, que não foi identificada.

“Compartilho do seu luto. Sei que deve ser devastador, mas estou aqui para dizer que a doação de um rim salvou minha vida e vocês deram esperança a milhões. Seu familiar é um herói. Um herói não só para mim, mas para o mundo inteiro”, afirmou Andrews.

“Nunca conseguirei retribuir, mas prometo que guardarei isso no meu coração. E este rim será cuidado e amado enquanto eu viver, e dedicarei minha vida, basicamente, pregando – e olha que não sou pregador – sobre o que este ato de amor proporcionou.”

Fonte: CNN Brasil

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