Como proteger as finanças das novas regras da reforma tributária

Mudanças nas regras de impostos sobre consumo, renda ou patrimônio podem encarecer produtos, reduzir a rentabilidade de investimentos e exigir ajustes no planejamento financeiro. Com o início da transição da reforma tributária no Brasil, em 2026, especialistas consultados pela Gazeta do Povo alertam que entender o cenário e se organizar financeiramente pode fazer diferença no bolso.

Mudanças tributárias são alterações nas normas que regem impostos, contribuições e obrigações fiscais. Elas podem ocorrer por decisões do Legislativo ou do Executivo, em nível federal, estadual ou municipal. Já as reformas tributárias – mais raras –, envolvem transformações estruturais do sistema, como a extinção de tributos e a criação de novos modelos de arrecadação.

“Esses movimentos, em geral, buscam corrigir distorções, redistribuir arrecadação e aumentar a eficiência do poder público em captar recursos, mas acabam impactando todos os aspectos econômicos da sociedade, inclusive as finanças pessoais”, explica o advogado tributarista Luiz Gustavo Bichara em entrevista à Gazeta do Povo.

O que muda com a reforma tributária?

Em 2025, o Congresso Nacional regulamentou a reforma tributária, que passa a valer neste ano, em modo de transição. A principal transformação promovida pela medida será a unificação de tributos sobre o consumo, hoje cobrados separadamente. O Programa de Integração Social (PIS) e a Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (COFINS) darão lugar à Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), de âmbito federal.

Já o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) e Imposto Sobre Serviços (ISS) serão substituídos pelo Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), compartilhado por estados e municípios. Atualmente, o ICMS é colhido pelos Estados, enquanto os municípios arrecadam o ISS.

O novo modelo prevê cobrança no destino, ou seja, o imposto será pago onde o bem ou serviço é consumido. Porém, para não gerar a chamada “cumulatividade plena”, o consumidor terá direito a créditos amplos ao longo da cadeia produtiva. A cumulatividade acontece quando o imposto é cobrado diversas vezes ao longo da produção e comercialização de um bem ou serviço.

A reforma também criou o Imposto Seletivo, voltado a produtos considerados prejudiciais à saúde ou ao meio ambiente, como cigarros, bebidas alcoólicas e combustíveis fósseis. A transição começa em 2026, com alíquotas de teste e adaptação dos sistemas fiscais, e se estende até 2033, quando o novo sistema passa a vigorar.

Como a reforma tributária afeta o orçamento das famílias?

Mudanças na tributação do consumo tendem a afetar diretamente o custo de vida. Segundo Bichara, alterações em alíquotas ou na forma de cobrança podem encarecer produtos e serviços, além de impactar a rentabilidade de investimentos e o planejamento patrimonial.

O advogado cita, por exemplo, mudanças recentes na tributação da renda, como a discussão sobre a tributação de dividendos, que podem levar empresas a alterar seus modelos de remuneração.

“Essas mudanças podem encarecer o custo de vida, a rentabilidade de investimentos e exigir diferentes estratégias, seja no âmbito empresarial, seja no próprio controle das finanças pessoais”, diz Bichara.

A Reforma Tributária, em vigor este ano, muda impostos e impacta investimentos. (Foto: Daniel Dan | Unsplash)

Já na tributação do patrimônio, ajustes em impostos como Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) e Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA) podem exigir reavaliações no planejamento de quem possui imóveis, veículos ou heranças. Há ainda os chamados tributos extrafiscais, criados para induzir comportamentos.

“O aumento de impostos sobre carros mais poluentes, por exemplo, busca incentivar o consumo de veículos elétricos ou híbridos. Já a maior tributação sobre cigarros e bebidas visa reduzir o consumo desses produtos”, explica o advogado.

Planejamento é a principal proteção em tempo de reforma tributária

Para o economista e especialista em educação financeira Gean Duarte, da Me Poupe!, o principal instrumento de proteção em períodos de mudança tributária é o planejamento. “Quando impostos, preços e margens mudam, viver sem planejamento costuma sair caro”, afirma à Gazeta do Povo.

Segundo o economista, olhar a vida financeira com antecedência, ao menos para os próximos 12 meses, ajuda a sair do improviso e a criar margem para imprevistos, como reajustes inesperados de custos ou queda de renda.

Dessa forma, a reserva de emergência ganha ainda mais importância. A recomendação é ter o equivalente a pelo menos seis meses do custo de vida aplicado em investimentos de liquidez diária e baixo risco, como o Tesouro Selic. “Essa reserva funciona como um colchão financeiro, que evita que qualquer mudança de imposto vire dívida”, diz.

Para quem trabalha como pessoa jurídica ou de forma autônoma, o cuidado precisa ser maior. Mudanças na tributação do consumo e da renda podem alterar significativamente a margem de lucro de serviços e negócios.

“Não dá para precificar olhando só para quanto se quer ganhar no mês. É preciso considerar os impostos no cálculo da renda, inclusive antecipando mudanças que estão vindo”, explica Duarte. “Quando isso não entra na conta, o resultado costuma ser trabalhar muito e sentir que o dinheiro nunca sobra. Antecipar essa análise ajuda a proteger a renda e a manter o negócio de pé mesmo em períodos de transição.”

Diversificação de investimentos

Bichara reforça que não existe uma estratégia única. Um aumento de IPTU, por exemplo, pode levar investidores a diversificar o portfólio e reduzir a concentração em imóveis. Já mudanças na tributação sobre serviços podem exigir revisão do portfólio de ações ou do modelo de negócios.

A principal estratégia para passar por um período de reforma tributária está na diversificação dos investimentos. Ao não concentrar todo o patrimônio em um único ativo ou setor, o investidor reduz a exposição a mudanças tributárias que afetem especificamente determinada atividade econômica.

Outra recomendação é acompanhar o noticiário econômico e as movimentações legislativas. Segundo Bichara, isso permite antecipar decisões. O advogado lembra que, diante da possibilidade de tributação de dividendos a partir de 2026, algumas empresas se anteciparam e realizaram pagamentos ainda em 2025, dentro das regras que mantinham a isenção.

Já o economista Gean Duarte recomenda o controle total dos gastos do dia a dia. “Quando o assunto são ferramentas e hábitos de educação financeira, a boa notícia é que não precisa de nada sofisticado. Pode ser planilha, aplicativo ou até um caderno. Saber exatamente quanto entra, quanto sai e onde o dinheiro está sendo gasto dá clareza para ajustar o orçamento quando o cenário muda. O erro é fingir que nada mudou e manter o orçamento engessado enquanto a realidade já é outra”, diz.

Duarte destaca que buscar apoio profissional faz parte de uma estratégia financeira saudável. O contador pode ajudar a organizar a parte tributária e identificar o melhor enquadramento dentro da lei, até para reduzir o total pago em impostos. Já o planejador financeiro ou assessor de investimentos auxilia a conectar essas decisões aos objetivos de vida, ao orçamento familiar e aos planos de médio e longo prazo.

“Planejar é sair do susto, ganhar clareza e tomar decisões com mais consciência, antes que o problema apareça”, resume Duarte.

Fonte: Gazeta do Povo

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