Os protestos antigovernamentais que se espalham pelo Irã representam um desafio significativo para o regime teocrático do país, mas uma possível intervenção militar americana enfrentaria complexidades estratégicas e geopolíticas consideráveis. Em entrevista ao Live CNN, Alexandre Pires, professor de Relações Internacionais do Ibmec, explica que qualquer tentativa de ataque aéreo por parte dos Estados Unidos exigiria uma inteligência precisa sobre alvos estratégicos.
“Isso precisaria ser bem feito porque, hoje, esses protestos não são mais localizados, não é um fenômeno só de Teerã, Você teria que ter um cuidado, inclusive, para não acabar atingindo os próprios manifestantes ou intensificando a retaliação do regime”, alerta o especialista.
“É preciso coletar inteligência e atacar pontos que seriam neurálgicos”, afirma Pires, destacando a dificuldade de localizar figuras-chave como o líder supremo Khamenei e os principais generais da Guarda Revolucionária.
Relação com países vizinhos
Segundo o professor, o Irã – por meio das acusações de intervenção estrangeira nos protestos – está ameaçando os países vizinhos que tem conexão aos Estados Unidos, “como não consegue atingir militarmente os Estados Unidos em seu território, fazem tudo de modo a afetar os americanos”, aponta o professor: “É uma tentativa de não se isolar e fazer com que esses países não se juntem a uma operação de mudança de regime”.
“No Oriente Médio, a Arábia Saudita e, especialmente, os Emirados Árabes não são regimes alinhados, a única coisa em comum é que são muçulmanos. Mas, são aliados dos Estados Unidos, não há possibilidade de junção”, afirma.
A complexa estrutura de poder iraniana
O professor explica que o Irã possui uma estrutura de governança dividida em duas camadas. A primeira corresponde à estrutura republicana tradicional, com poderes executivo, legislativo e judiciário. Acima desta, existe a camada revolucionária teocrática, composta pelo líder supremo (aiatolá), o Conselho dos Guardiães e a Guarda Revolucionária, que possui força militar própria e não está subordinada ao exército regular.
“Essa revolução é uma revolução religiosa, teocrática. A Guarda Revolucionária, o Conselho dos Guardiães, o líder supremo religioso, o aiatolá, essa figura está ligada à parte religiosa”, esclarece Pires, ressaltando que no mundo islâmico, historicamente, o líder religioso também exerce o papel de líder político e militar.
“No mundo islâmico, o líder religioso sempre foi o líder político e guerreiro, isso desde os califados, todas as figuras que conhecemos detém as duas funções – e foi isso que eles restauraram no Irã”, explicou o especialista.
O especialista também abordou a questão do programa nuclear iraniano, esclarecendo que estimativas americanas sobre a capacidade do Irã de produzir uma bomba nuclear em poucas semanas estavam equivocadas. “Nós já descobrimos que essas estimativas estavam extremamente erradas. Se eles tivessem há duas semanas de uma bomba nuclear, nós já teríamos visto ela desfilando em praça pública”, afirmou.
Mesmo assim, Pires reconhece que o Irã avançou significativamente em sua capacidade de enriquecer urânio, modificando centrífugas para atingir níveis superiores a 90% de enriquecimento, o que disparou preocupações internacionais. A situação é agravada pelo fato da Agência Internacional de Energia Atêmica não conseguir verificar as atividades nucleares iranianas há algum tempo.
Fonte: CNN Brasil





















